O LADO OCULTO DA LUA REVELA SEGREDOS SOBRE O GRANDE BOMBARDEAMENTO
Existe uma frase que aparece em praticamente todo livro de astronomia publicado nos últimos cinquenta anos e que talvez esteja errada: a de que, há cerca de 3,9 bilhões de anos, o Sistema Solar interior foi varrido por uma chuva de asteroides tão intensa que redesenhou a superfície de todos os planetas rochosos ao mesmo tempo. Esse episódio ganhou nome próprio, Grande Bombardeio Tardio, e nunca foi apenas um detalhe de geologia lunar: se aconteceu, a Terra jovem foi esterilizada exatamente no intervalo em que as primeiras moléculas capazes de se copiar surgiam por aqui. O problema é que toda a evidência para esse cataclismo veio de rochas coletadas em seis pontos de um único hemisfério da Lua. As missões Apollo pousaram todas no lado visível, e cinco dos seis locais de pouso ficam perto o bastante da bacia Imbrium para receber material lançado pela formação dela. Imbrium tem 1.145 quilômetros de diâmetro e se abriu há cerca de 3,92 bilhões de anos, cobrindo boa parte do hemisfério com rocha derretida. A pergunta que ficou pendurada durante décadas é se o pico de 3,9 bilhões de anos que aparece nas amostras Apollo é a assinatura de um cataclismo do Sistema Solar ou apenas o eco muito bem registrado de um único evento local. Um trabalho publicado na Science Advances por Wan-Feng Zhang e mais vinte e sete pesquisadores do Instituto de Geoquímica de Guangzhou, da Academia Chinesa de Ciências, com participação da Universidade Curtin, acaba de atacar essa questão pelo caminho que ninguém tinha conseguido percorrer antes: analisando material do lado oculto da Lua. Em 25 de junho de 2024, a missão Chang'e-6 trouxe 1.935,3 gramas coletados na borda sul da bacia Apollo, dentro da gigantesca bacia Polo Sul-Aitken. Deste material, dois gramas foram liberados pela agência espacial chinesa para datação. O grupo separou mais de cem partículas maiores que 100 micrômetros, identificou 28 clastos com textura de rocha fundida por impacto e datou cada um individualmente pelo método ar